POR QUE ESCOLHI O DIREITO?
- Nahyra Ferreira dos Santos
- 5 de ago. de 2020
- 4 min de leitura
Na minha 2ª ou 3ª série do ensino fundamental, a professora de artes solicitou que desenhássemos a profissão que gostaríamos de seguir. Nessa ocasião desenhei (ou tentei desenhar) uma advogada, com sua pastinha na mão, vestida de social, entrando em um prédio.
Não lembro ao certo da onde surgiu essa minha vontade, não sei se era porque meu pai fez Direito ou se vi em algum lugar e gostei do visual, já que com meus 8 ou 9 anos de idade, não tinha a noção da importância de um advogado para a sociedade.
Os anos foram se passando e quando me questionavam o que eu queria ser quando eu crescesse, eu afirmava que queria fazer alguma diferença no mundo: ia fazer Direito ou ser ativista do Greenpeace.
Em toda a minha vida eu sempre tive o processo criativo muito forte, sempre inventava alguma moda na época da escola, como uma fitinha de laço no look ou as barras de calça coloridas.
Quando cheguei no 3º ano do ensino médio, no vestibular de meio de ano, prestei para Direito junto à ACAFE e passei em 6º lugar.
No entanto, ao passar os meses da proximidade de fazer novamente o vestibular, agora para valer, comecei a pensar que eu não queria mais fazer diferença na vida de ninguém, não queria resolver problemas alheios, queria um trabalho “tranquilo”. Es que pensei: “Vou fazer design de moda e fazer do meu hobby um trabalho”.
Então fui fazer design de moda.
No primeiro mês de faculdade já veio a frustração. Não era o que eu queria. O hobby se transformou em obrigação. Meu processo criativo que era algo natural, passou a ter barreiras, e eu fui me sentindo inútil, porque a minha essência queria fazer a diferença na vida de qualquer pessoa que fosse.
Com isso, finalizei o 1º período da faculdade de design de moda e transferi para o Direito.
No Direito, no 1º e 2º períodos, os professores perguntam o que os alunos pretendem seguir, a fim de direcionar a turma. Nessas perguntas eu respondia que queria ser juíza, promotora, desembargadora, mas jamais queria ser advogada. Explico porque: na minha visão, ser advogada era ser comum, ter mais um escritório no meio de tantos que tem em cada esquina. Eu não queria ser isso, eu não queria ser mais uma.
No 4º período da faculdade coloquei na cabeça que eu seria juíza do trabalho. Eu achava injusto os trabalhadores colocarem seus patrões “no pau”, tendo a experiência de ser filha de empresário que tinha empresa pequena e sempre tentou proporcionar um meio ambiente do trabalho sadio, valorizando aquele trabalhador que não era substituível.
No 5º período comecei a assistir audiências trabalhistas. Com todo o respeito e gratidão que tenho ao Judiciário Trabalhista, desapontei-me ao ver que os juízes não podem fazer a diferença de ofício, eles têm que ser provocados e, muitas vezes, seguir o sistema e fazer decisões políticas, em obediência a entendimento de instâncias superiores.
Logo, pensei: “Quem busca o Direito alheio e faz a diferença na vida das pessoas são os advogados, aqueles que eu não queria ser jamais no início da faculdade”.
Com isso decidi que seria advogada.
Mas e agora? Qual área seguir?
Primeiramente pensei em seguir na área de Direito Administrativo, a fim de efetivar os Direitos Sociais através de ações populares, mandados de segurança para garantir vagas em creches, escolas, concursos públicos. Tanto que o meu TCC eu fiz sobre as cotas para deficientes físicos e o ingresso destes na carreira pública. Fiz uma pesquisa e verifiquei que havia exigências de ausência de deficiências físicas em alguns editais de concursos públicos e isso me incomodava muito.
Todavia, mesmo na época da faculdade, ao verificar processos sobre o tema, não via um grande campo de atuação na minha cidade. Os processos que tinham duravam anos e anos e a morosidade da Justiça é algo que sempre me incomodou e me incomoda até hoje.
Ao me formar, fui contratada por um escritório de advocacia que atuava principalmente na área de Direito Previdenciário e do Trabalho. Virei uma trabalhadora e passei a ver a relação de trabalho de outro ângulo. Nesse escritório eu era, basicamente, uma máquina de fazer peças. Fazia mais de 30 petições por dia. Trabalhava 10, 12 horas por dia e isso não era o suficiente. Eu era uma máquina que poderia ser substituída a qualquer momento. Ou seja, fazia as coisas automaticamente, sem pensar muito, apenas para cumprir as metas. Aquela minha visão de empresário de empresa pequena que valorizava os trabalhadores foi substituída por um empresário que só visava a quantidade e não a qualidade, tratando os trabalhadores como seres substituíveis.
Assim, decidi sair desse escritório após 6 meses, e encarar a advocacia de forma autônoma.
Comecei a advogar como associada de um escritório, no qual aprendi muito, principalmente a ouvir os clientes e a ser alguém que eles podiam contar. Em um mundo que a empatia está em falta, quando alguém nos escuta, o peso dos nossos problemas é dividido. Isso eu faço até hoje com meus clientes. Minha função, além de lutar pelo Direito deles, é fazer com que a sobrecarga da injustiça até então vivenciada seja dividida e que ele encontre em mim, alguém que pode ajudar.
Fiquei como associada de escritório de advocacia por quase 3 anos, até que resolvi abrir meu próprio escritório.
A vida na advocacia me fez cruzar com os haitianos que vieram para o Brasil para conseguir uma vida melhor. E na tentativa dessa vida melhor, por desconhecimento das normas brasileiras, por se sentirem menosprezados, acabam por aceitar qualquer subemprego, sem CTPS assinada, sem qualquer garantia legal.
Neles vi a possibilidade de fazer aquela diferença que eu tanto queria fazer na vida alheia. Tanto que 60% dos meus clientes hoje são haitianos. 90% dos meus processos trabalhistas são de empregados de baixa renda. 10% são empresa e todas elas de pequeno porte.
Obviamente, a advocacia é a minha profissão e preciso que seja remunerada, não fazendo, deste modo, “pro bono”. Mas atuar na defesa desses Direitos me faz uma pessoa realizada profissionalmente.
E a moda? Ah, continua sendo o meu hobby. Está concretizada através das minhas make-ups, lookinhos do dia, enfim, faz parte de mim, mas não profissionalmente.
Por isso, se você ainda tem dúvidas do que quer ser na vida. Relaxa. A vida se encarrega de trazer as respostas, basta você estar disposto a ouvir.
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